Sunday, June 10, 2007

O Cristão Tentado

Todo o cristão, em alguma altura da sua vida, sente insuportável o cansaço do peso que carrega; é invadido por uma irresistível tentação de desistir de tudo, de voltar ao estado inicial, de acreditar que tudo não passa mesmo de uma enorme invenção. Acreditar que o que conta de facto são as pequenas coisas. Como faz o seu vizinho, que todos os dias dorme descansado e acorda para a sua rotina diária, convencido de que esta faz mesmo algum sentido, iludido de que tudo está bem consigo. Em algum momento da sua curta vida, o apelo da ilusão consciente deverá tornar-se demasiado tentador.

Então, paradoxalmente, o ‘tentado’ sentir-se-á abençoado se viver na cidade. Onde, se por um lado esta ilusão é mais forte, por outro, é demasiado evidente: no egoísmo que carregam os seus habitantes, nos pequenos cultos do ego que praticam, na sua arrogância, na artificialidade dos gestos, no culto dos pequenos deuses finitos que acreditam ser.

Mas o confronto com as gentes do campo, que vivem ainda a terra que pisam, que pela sua autenticidade parecem viver num estado de real proximidade com a paz, com o sentido das coisas, torna tudo mais complicado. É aqui que a força da fé é mais fortemente abalada, é aqui que a renovação da consciência cristã de que existe mesmo algo de errado com o Homem encontra o seu adversário mais temível. Deste confronto parecerá que nada melhor existe do que aspirar ao estado de paz dessas gentes, aspirar por esta simplicidade, por esta aceitação tranquila da ordem natural das coisas.

Sunday, May 27, 2007

Deus, Sexo e Futebol

Do meu grupo de amigos de infância, quando tinha eu 7, 8 anos, faziam parte alguns rapazes mais velhos. Embora o convívio passasse habitualmente pelo futebol, por vezes surgia à baila a conversa sobre raparigas. Recordo-me de numa delas o elemento mais velho do grupo ter referido que um adulto lhe explicara os gritos da mulher durante o acto sexual: estes não eram afinal uma manifestação de dor, mas sim de um conjunto complexo de emoções, de prazer. Com receio de parecer estúpido, concordei; lembro-me no entanto de não ter compreendido nada do que este meu amigo falava. Esta era uma questão que, a mim, ainda não se colocava. Se não era dor, porque gritava? Porque gemia? Se era prazer, não deveria antes sorrir? Eu só gritava quando tinha o joelho esfolado de uma queda, e quando gostava muito de alguma coisa, dava gargalhadas. Aquilo não fazia muito sentido.

Hoje, do meu pequeno grupo de amigos uma parte muito significativa é ateia. Hoje, quando lhes falo de Deus, não consigo deixar de me sentir um pouco como o meu amigo de infância. Tal como a minha sensibilidade ainda não estava desperta para a sexualidade, a maioria das pessoas que conheço parece fechar o “canal” que as poderia conduzir à transcendência, tudo tem de ser palpável, científico. Não sabem o que perdem. Tal como eu em míudo, convencido que estava que o melhor a que poderia aspirar era mesmo marcar um belo golo, como o Bebeto fazia no Vasco.

Thursday, May 24, 2007

Ainda a Tourada

Quem está contra a tourada apresenta, habitualmente, dois tipos de argumentos. O primeiro trata-se de um cert0 sentimento de compaixão pelo animal, o segundo consiste no desagrado pela celebração de uma festa realizada sobre a tortura que é imposta ao toiro.

Concentremo-nos então sobre o primeiro. Imagine que está mesmo muito preocupado com o bem-estar do animal, que não suporta que este seja torturado e que por isso mesmo a tourada deveria ser proibida. Não tem porém nada contra a morte do toiro, caso à sua carne fosse dado o mesmo destino que a de tantos outros animais. Muito bem. Imagine agora que as farpas desapareciam da tourada para dar lugar apenas à execução pública do animal, numa arena. Nesse caso, já não estaria contra a tourada? Muito provavelmente continuaria a opôr-se. Porquê? Porque não é o sofrimento do animal que verdadeiramente o interessa, é uma outra coisa. Se é contra a tourada e julga que o é porque gosta muito dos touros, está enganado. Não é por isso que deseja que as touradas sejam proibidas.

Passemos então ao segundo tipo de argumento. Aqui não é tanto o tratamento ao qual o animal é submetido aquilo que o choca, mas sim a finalidade para o qual este se destina. Inquieta-o sofrimento do animal, todo o espetáculo das farpas e do sangue mas, mais uma vez, não é essa a razão da sua indignação. Não é certamente contra a utilização de um primata numa experiência científica que permita descobrir a cura para uma doença como a SIDA, muito embora o tratamento ao qual o macaco é submetido seja de uma enorme violência. Ora, o problema todo reside apenas no facto de achar que seres humanos não devem gozar de um sofrimento que é imposto ao toiro. Não é o animal o centro da questão, mas a atitude humana perante esse mesmo animal.

Afirmar porém, que quem gosta de tourada, gosta do espectáculo porque existe um toiro que é torturado, só pode ser dito por alguém que, afinal, não a compreende. A praça de toiros não é povoada por uma mão cheia de homens e mulheres com olhos vermelhos e caudas pontiagudas, que rejubilam com cada gota de sangue vertida sobre a arena. A tourada é antes a celebração de um modo de vida, note que não estou a negar o sofrimento do animal, mas apenas a relembrá-lo que não é essa a razão pela qual as pessoas assistem a uma tourada. Se está muito preocupado porque vive numa sociedade onde pessoas vibram com o sangue vertido dos animais, fique descansado, não vive; não é numa praça de toiros que as vai encontrar.

Friday, May 18, 2007

A Tourada e a arrogância do puritanismo

Os animais não possuem direitos. Ou melhor, possuem, mas apenas enquanto algo que lhes é atribuído pelo Homem. Em si mesmo, em absoluto, eles não existem. Não existe no reino animal algo como a moral ou a ética, estas são intrínsicamente humanas.

Ao contrário do que defendem associações como a animal, a questão essencial da tourada não é se esta está certa ou não (esta é, aliás, uma pergunta absurda) mas antes se a convicção/valores dos defensores dos direitos dos animais deve ou não sobrepôr-se ao direito de alguns portugueses organizarem e participarem numa tourada.

A atitude deste tipo de associações resume-se assim a um puritanismo ingénuo, mas sobretudo arrogante, que coloca os animais, ou melhor, a sua convicção, à frente do respeito pela tradição e modo de viver de outros.

Friday, May 4, 2007

Ser jovem é ser da Quercus. Ser (mais)velho é ambicionar o purgatório

Para quem é da minha geração, esquerda e moda são palavras que se confundem, tal como igreja e mofo ou direita e betos. Assim sendo, a escolha racional de qualquer miúdo de 16 anos que quisesse aparentar ser um gajo fixe, consistia em colar uns autocolantes do Che na mochila. Aos 16 anos foi o que fiz.

Porém, caso ainda andasse de mochila (e ando, mas é daquelas que serve para levar o computador), não seria o Che que estaria lá colado mas, quem sabe, o Al-Gore. Bem, pensando melhor, não o Al Gore, isso seria maricas... mas talvez o título do seu documentário, rabiscado a caneta de tinta permanente, ou ainda melhor, o o logotipo da Quercus.

A questão da existência de limites do crescimento não é nova, é antes bastante velha. Já por diversas vezes estivémos condenados à extinção e, uma vez atrás da outra, lá o Homem foi capaz de ir fugindo ao seu triste destino. Para um economista, a resposta a estas crises sucessivas foram dadas pelo mercado e pela capacidade de adaptação dos hábitos sociais. Assim sendo, economicamente falando, porque razão deveríamos estar preocupados com este novo documentário? A resposta em duas linhas é mais ou menos esta: os problemas associados ao aquecimento global devem-se essencialmente a falhas de mercado, agravadas pela sua natureza transnacional.

É este último elemento que levaria o jovem Renato Rosa a escrever o nome do DVD na sua mochila. Porquê? Porque este carácter transnacional do problema tem suscitado uma nova utopia de unidade/solidariedade mundial entre povos, alegadamente essencial para este combate. Nas correntes mais extremistas há mesmo quem já proponha a criação de governos mundiais, que sejam efectivamente capazes de lidar com o problema e evitar assim a extinção da nossa espécie.

Com luta contra imperialismo capitalista e união final entre povos no mesmo pacote não há jovem que resista.

O único problema recorda-nos porém, a história, quando olhamos para trás para verificar que a cada sonho de paraíso na terra seguiu-se o inferno. Parecendo que não, o melhor mesmo é ficar pelo purgatório...

Tuesday, April 24, 2007

Porque é que o autor deste blog ainda não é cristão?

Uma pergunta que me é dirigida com alguma regularidade, e que será facilmente suscitada com a leitura dos posts que por aqui vou escrevendo. Admito.
Fugindo a uma resposta directa acho que posso pôr as coisas mais ou menos nos termos que se seguem.

Digamos que a conversão religiosa é como o casamento. Convém que seja para toda a vida, que a pessoa “escolhida” seja realmente a “correcta” e que este seja vivido 24 horas por dia, mesmo quando num esplendoroso dia de verão, a miúda mais bonita da esplanada pisca o olho e pede para juntar-se à mesa. Dito isto podemos dizer que eu e o “Nosso Senhor” andamos numa fase de namoro, não combinamos idas ao cinema mas vamos marcando um encontro mais ou menos diário, ao qual compareço com o entusiasmo das primeiras saídas. Mas daí a estar com Ele 24 horas por dia ainda vai um pedaço, mesmo quando tudo aponta para que ele seja mesmo a minha cara metade. Cobardia? Sim, muito provavelmente, quase de certeza, ... mas entendam: ainda sou muito jovem para assumir compromissos!! ... e existem tantas miúdas bonitas...

Wednesday, April 11, 2007

A Educação e a Solidariedade de Gabinete

O principal problema de alguns pensadores do sistema educacional consiste na sua solidariedade de gabinete. Reside em conceber a escola como instrumento de intervenção directa sobre os problemas de quem por lá vai andando. Porém, quem não teve a felicidade de nascer abençoado, não necessita de um encontro com estes novos Jesus Cristos da sociologia. Não precisa de alguém que os salve, mas sim de uma oportunidade de salvação. São os menos afortunados que precisam de uma escola rigorosa, exigente, sem medo dos chumbos. Desviar a escola da sua função principal, a de transmissão de conhecimento, tornar a escola numa delegação do departamento de solidariedade social, prejudica quem mais precisa.